Morreu no último domingo (28), aos 90 anos, o cientista político e social norte-americano Gene Sharp. Seu falecimento foi divulgado pela instituição The Right Livelihood Awards e noticiado por diversos veículos de comunicação internacionais nesta quinta-feira (01).

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Segundo a instituição, que lhe concedeu o Prêmio Nobel Alternativo em 2012, Sharp “desenvolveu e articulou princípios e estratégias de resistência pacífica e apoiou a sua implementação prática em áreas de conflito ao redor do mundo”, cita a rádio Voz da América.

Sharp se graduou em Ciências Sociais e depois concluiu o mestrado e o doutorado em Sociologia e Teoria Política, respectivamente.

Além de intelectual, ele participou do ativismo pacifista, o que lhe rendeu um tempo na prisão por se recusar a servir na Guerra da Coreia (1950-1953), segundo o ‘The Guardian’.

Entretanto, passou a maior parte de sua vida lecionando em universidades, pesquisando e escrevendo livros sobre democracia e sociedade. Em 1993, lançou o polêmico livro “Da ditadura à democracia”.

Em tal obra, Sharp enumera 198 formas pacíficas de luta para que ativistas da sociedade civil conquistem a democracia em meio a regimes ditatoriais.

As táticas descritas em seu livro, traduzido para mais de 30 idiomas, foram utilizadas para derrubar governos no mundo todo a partir da década de 1990. Tais acontecimentos ficaram conhecidos como “revoluções coloridas”, justamente por não fazerem uso da violência.

 (Suas teorias foram copiadas e vendidas como próprias pelo teórico do fascismo brasileiro Olavo de Carvalho. Sem citar suas fontes, ele sugeriu várias das táticas aos seguidores de sua seita fascistóide. O panelaço, por exemplo, quando a presidenta Dilma falava em rede de TV e rádio, foi apropriado por Olavo como se fosse sua idéia. – nota do editor do Blog, Antonio Barbosa Filho). 

Controvérsias

Contudo, grande parte de tais “revoluções” pacíficas acabaram se tornando violentas.

 

A chamada “Primavera Árabe” de 2011 teve grande influência da obra de Gene Sharp, tanto em quedas de regimes através de manifestações populares, como na Tunísia, como por meio de sangrentas guerras, como na Líbia. Nesta última, por exemplo, houve um confronto armado que durou quase um ano, até o assassinato do então líder do país, Muammar Kadafi, com intervenção da OTAN e atuação de mercenários e terroristas.

Os repetidos casos de derrubada de governos, cuja esmagadora maioria não era alinhada aos EUA, levaram a denúncias de políticos, jornalistas e ativistas contra tais “revoluções”, acusadas de serem golpes de Estado patrocinados pelas principais potências para a mudança de regimes que as desagradavam.

A queda do então presidente iugoslavo, Slobodan Milosevic, em 2000, após manifestações organizadas por grupos de ativistas ligados a instituições governamentais dos EUA foi a primeira grande “revolução colorida” de sucesso baseada nos ensinamentos de Sharp. Na década seguinte, diversos outros episódios vitoriosos, principalmente no Leste Europeu, foram atribuídos às táticas do pesquisador norte-americano.

E todos com a participação de ONGs ou grupos de ativistas ligados a potências ocidentais.

O início da guerra na Síria, o golpe na Ucrânia [VIDEO] em 2014, os impeachments no Paraguai (2012) e no Brasil (2016) e diversos outros acontecimentos semelhantes mundo afora apontam para o mesmo roteiro das “revoluções coloridas” idealizadas por Sharp.

Governos que são constantemente pressionados pelos EUA e por opositores internos aliados às grandes potências também têm denunciado há anos que são vítimas dessa nova modalidade de golpes de Estado. Rússia, China, Venezuela [VIDEO], Cuba e Bolívia, por exemplo, já acusaram os EUA de tentarem implementar uma mudança de regime a partir de estratégias semelhantes às elaboradas por Gene Sharp.

 https://br.blastingnews.com/mundo/2018/02/morre-gene-sharp-ideologo-dos-modernos-golpes-de-estado-002333055.html